Sunday, November 06, 2005


RADIO, LIVE TRANSMISSION

“We would have a fine time living in the night,
Left to blind destruction,
Waiting for our sight.”

Ian Curtis foi uma dessas raras aparições, meteóricas e revolucionárias no universo da música pop. Junto com Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris, formou uma das maiores bandas de todos os tempos, o Joy Division, banda que iria tornar-se a lendária “New Order” após a sua morte.

O Joy Division nasceu no final da década de 70, na atmosfera pós-punk da industrial Manchester, na Inglaterra. A cidade não estava no cenário internacional da música como hoje e o Joy Division não era exatamente uma banda punk, mas era diretamente inspirada pela energia da música punk. Como o punk, eles usaram a música pop como forma de mergulhar no inconsciente coletivo. A banda cresceu numa época em que as informações corriam de boca em boca e foi a mola propulsora de uma das casas noturnas mais bem sucedidas da história, a Factory, de Tony Wilson.

Ian Curtis não era um letrista comum, e era tão extremo que “quando tinha um interesse, esse interesse tornava-se uma vocação”. Leitor de poesia, cinéfilo, grande admirador de David Bowie, Iggy Pop, Roxy Music, Lou Reed e do Velvet Underground, Ian Curtis tinha também um flair para o palco, para o drama. Segundo sua viúva, Deborah Curtis, sua maior paixão após a música eram as roupas. Economizava seus trocados como vendedor da Rare Records para comprar uma jaqueta de couro vermelho, ou um xale com estampa de onça. Ferocidade que carregava para o palco. Suas performances eram tão intensas que ninguém conseguia deixar a sala de concerto. Ian era epiléptico e a impressão era de que estava possuído no palco – por algo que beirava uma crise, violenta.

Junto com a melodia sombria e explosiva da banda, as letras de Ian traziam à tona sua natureza melancólica, sua instabilidade emocional, o flerte com a morte e com as relações destrutivas. Talvez tivesse um ego frágil como o de uma personalidade limítrofe, que enxerga o outro lado e criptografa suas visões.

You’ve been seeing things,
In darkness, not in learning,
Hoping that the truth will pass.

(No love lost, 1977)

O Joy Division apresentou-se pela última vez em 1980, em Birmingham. A banda já estava famosa e às vésperas de partir para sua turnê americana, quando Ian suicidou-se num sábado à noite, aos 23 anos de idade, após passar o dia ouvindo Iggy Pop e assistindo um filme de Werner Herzog, Stroszek. Até o final, manteve o cenário noir em suspenso. Ian Curtis era um ator. Como declarou Steve Morris:

“If he was depressed, he kept it from us”.

Virna Teixeira

Publicado originalmente no blog Pesa-nervos, em junho de 2005.
Continuando: o Celso Boaventura, do Cárcere das Asas escreve sobre o New Order.

3 Comments:

Blogger Celso said...

O Joy Division foi um marco na história do rock. Closer é, com certeza, um dos 10 melhores discos de todos os tempos, e a poesia de Ian Curtis, com a sua carga excessiva (aliás, ótimo otítulo do blog) de dor, angústia e desepero está entre as melhores linhas já escritas na música. Para um amante do rock, teu post é um presente. Para um fã incondicional do Joy, teu post é uma necessidade.

Saudações do Cárcere

P.S. já está linkado.

2:04 PM  
Blogger virna said...

muito estimulante ler seu comentário, celso. entusiasmado, verdadeiro. o joy division foi um marco mesmo. e o que seria do new order se o ian curtis não tivesse existido? infelizmente, se foi cedo, mas na sua precocidade e excesso, o que deixou foi genial. "closer" é demais. e hoje eu ouvia o álbum "still".
vamos ampliar os links, adicionarei "o cárcere".

saludos,

virna

3:44 PM  
Blogger Ana Maria said...

Virna não conheço ninguem, no entanto admiro todos aqueles que são artistas.

8:45 AM  

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